Desvalorização de ativos nacionais atrai os investidores estrangeiros

Desde o início do ano, as projeções para o mercado de Fusões e Aquisições (M&A, na sigla em inglês) são abastecidas pelo retorno de uma participação mais acentuada do capital estrangeiro nas transações. Com o rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela Standard & Poor’s (S&P), um novo panoramas se abre no horizonte. Neste sentido, o revés pode, inclusive, auxiliar na consolidação de um cenário já formado pelo câmbio favorável, a precificação em baixa e um pouco de desilusão dos empresários brasileiros. Responsáveis por escancarar uma nova janela de oportunidades, juntos, os três fatores também ampliam o apetite dos investidores estrangeiros pelos ativos nacionais – já bastante desvalorizados nas cotações em dólar.

Para o vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), Clovis Meurer, a hipótese tende a ser confirmada em 2015. Representante de um setor que teve 25% de incremento na participação em fusões e aquisições concluídas no primeiro semestre de 2015, segundo dados da PwC, ele explica que os grandes fundos de private equity são impedidos de acessar países que não possuem o selo de bom pagador conferido pelas agências de classificação de risco. Apesar desta ser a condição atual do Brasil, os recursos costumam ser direcionados às empresas de capital aberto, com negociação em bolsa de valores.

Por outro lado, o mercado de M&A é formado por fundos menores e que, muitas vezes, obedecem a estratégias setoriais de aquisições de empresas que permitam a instalação ou o aumento da atuação no País. “Esses fundos olham para um mercado de 200 milhões de habitantes e, quando enxergam uma crise transitória, acabam não desistindo do Brasil. A perda do grau do investimento pressiona o dólar a patamares mais elevados e deprecia ainda mais o valor dos ativos nacionais. Isso pode favorece as estratégias de aquisições de empresas nacionais”, comenta.

Com cinco operações já concluídas em 2015 e outras quatro em andamento, o sócio do escritório Veirano, em Porto Alegre, Fernando Verzoini identifica um movimento que pode ser resumido pela crescente sondagem dos estrangeiros. A meta dos investidores, segundo ele, é agilizar o tempo de tramitação com o objetivo de aproveitar o ambiente cambial.

“É engraçado, porque o primeiro semestre foi muito movimentado, mas, no começo do segundo semestre, a situação ficou um pouco caótica. Entretanto, o escritório segue sondado e, eu diria, até mesmo em ritmo mais frequente do que o normal. Imaginamos que o ano acabará muito bem para os M&As”, projeta Verzoini.

Neste contexto, em 2014, puxadas principalmente pela participação nacional, as 879 operações de M&A registradas no Brasil representaram o maior desempenho em 12 anos. Agora, os dados periódicos levantados pela PwC, revelam justamente que as empresas de fora buscam expandir a sua base de investimentos no Brasil. Foi assim no primeiro trimestre, quando, dos 189 negócios fechados, 167 tiveram a origem do capital identificado no exterior.

No acumulado até junho, 183 negócios de estrangeiros e 187 nacionais dividem em fatias quase idênticas o bolo – mas, historicamente, a representatividade doméstica tende a ficar bastante acima da internacional. No ano passado, por exemplo, o gap no volume consolidado ficou entre 213 (nacionais) e 150 (estrangeiras). Por isso, Fábio Niccheri, Sócio da PwC Brasil, revela que, de fato, há um crescimento associado aos investidores estrangeiros.

De acordo com Niccheri, ao mesmo tempo, os brasileiros estão mais retraídos na ponta aquisitiva. O fato tende a favorecer o ingresso daqueles que observam o País com um viés de longo prazo. “Em momentos nem tão bons, sempre existem mais empresários desiludidos e, portanto, propensos a levar adiante as transações do que quando as coisas andam de maneira melhor. Certamente, o câmbio também favorece essa movimentação”, avalia.

Mercados podem piorar desigualdade na distribuição de renda, afirma Cepal
O economista da Comissão Econômica para América Latina e Caribe da ONU (Cepal) Esteban Pérez afirmou que os mercados financeiros podem piorar a desigualdade na distribuição de renda. Isso ocorre porque, em função desses mercados, produtos como as commodities deixam de responder apenas a questões de oferta e demanda e passam a reagir também a fatores meramente financeiros. Além disso, há a questão dos rentistas, que vivem do lucro de operações financeiras e não investem na economia real.

O especialista disse que não existe consenso na literatura econômica sobre se o desenvolvimento dos mercados financeiros ajuda ou atrapalha na questão da desigualdade, mas mostrou exemplos que reforçam a segunda hipótese. Para essa linha de pensamento, esses mercados são uma fonte de instabilidade e servem de instrumento para operações especulativas.

Pérez apontou que, em 1990, a liquidez financeira global era de 200% do PIB e, atualmente, já está em 1.200%, sendo que não houve mudanças significativas mesmo com a crise de 2008. Ele comentou ainda que o desenvolvimento dos mercados financeiros tem um aspecto de irreversibilidade e mencionou que, na maioria das vezes, quando há uma crise, os governos são obrigados a salvar primeiro o sistema financeiro. “Em 2008, os pacotes de resgate para os sistemas financeiros nos países desenvolvidos ficaram em média em 14% do PIB, enquanto as medidas de estímulo fiscal foram de 5%.”

Fonte: Jornal do Comércio